Portugalis – Turismo, Cultura, Lazer, Saúde, Desporto e Bem-estar

PORTUGALIS ®

Turismo, Cultura, Lazer, Saúde, Desporto e Bem-estar

Diretor: Nuno Pinto

Publicação Periódica: Registo ERC, n.º 127078

Periodicidade: Diária

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Vila Real de Santo António

Vila Real de Santo António

Foto: CMVRSA

Delírio de Opinião
Delírio de Opinião
Augusto Balça | Formador e Tecnólogo
Formador e Tecnólogo | Augusto Balça

Há uma linha que separa…

Há uma linha que separa… Por Augusto Balça

Regresso, neste “delírio”, ao tema da Transformação Digital, um dos assuntos que considero prementes na questão do desenvolvimento e da mudança cultural global, em particular aplicada ao nosso país e aos nossos “lugares”. Desta feita, despindo um pouco a capa de tecnólogo, tentarei relatar a minha experiência pessoal enquanto cliente e turista por lugares que, aqui no Portugalis®, promovemos.

Este ano aproveitei uma parte das minhas férias para viajar acima do Tejo, aquela linha que tantas vezes separa dois ritmos de desenvolvimento num retângulo tão pequeno como o nosso. Num périplo que envolveu várias paragens, fui-me apercebendo do impacto que a tecnologia tem tido não apenas na promoção dos lugares, como também na própria dinâmica destes, assim como nas próprias indústrias de turismo e de viagens, constituindo-se mesmo como pioneiras no processo de inovação.

Quando ouvimos falar em Transformação Digital, especialmente naqueles espaços de maior alcance mainstream, vemos muitas vezes confundido este conceito com transição digital ou até com simples processos de digitalização. Na verdade, sem alargar-me numa definição mais elaborada, a Transformação Digital é um fenómeno que incorpora o uso da tecnologia digital nas soluções de problemas tradicionais. Mas vai além de automatizar processos, uma vez que combina a estrutura organizacional com a transição tecnológica. Este processo de imersão na tecnologia digital, assim como a integração do digital no core do funcionamento das organizações, nem sempre são fáceis de entender, principalmente quando ignoramos certos drivers da transformação, como modelos de negócio e, fundamentalmente, a experiência do cliente e dos ativos da própria organização, desde colaboradores, gestores, até aos parceiros envolvidos.

Num misto de lazer e trabalho, foram muitos os locais e negócios, ao longo do périplo que fiz, em que me detive a observar e a recolher alguma informação, designadamente mercados, bibliotecas, universidades, instalações municipais, igrejas, restaurantes, lojas de retalho, etc.. Foi impossível não pensar nas flagrantes diferenças que saltam à vista acima daquela linha que nos separa, entre dinâmica a norte do Tejo, quando comparada com a do sul do país. Sabemos de antemão que as diferenças existem, e muito bem documentadas. Climáticas, históricas, geográficas, morfológicas, botânicas, culturais e até mesmo linguísticas. Recordo-me, por exemplo, da obra Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, do geógrafo Orlando Ribeiro, editada em 1945, mas que ainda hoje é para muitos uma referência. Mas diferenças económicas também. Não é à toa que se afirma que quase metade das exportações portuguesas partem do Norte de Portugal, ou que esta região é responsável por quase um terço da riqueza gerada na economia nacional. Além da industrialização, marcada pela presença de empresas têxteis, de calçado, transformação de alimentos, indústrias mecânica, elétrica, eletrónica e química, também na Investigação & Desenvolvimento (I&D) o Norte do país é internacionalmente reconhecido nas mais diversas áreas científicas e tecnológicas, contando com alguns dos mais importantes centros de investigação académicos. Para a generalidade destas indústrias, empresas e instituições, a adaptação digital não é opcional, sendo sim uma condição indispensável para continuarem a ser competitivas e a responderem às crescentes exigências dos consumidores.

Foi interessante perceber a forma como gestores e empresários encaram o negócio, ou como responderam e respondem às crises. Encontrei, de uma forma generalizada, uma atitude bastante empreendedora por parte de empresários, gestores e decisores, a aproveitarem as infraestruturas de acessibilidade e de conectividade instaladas, assim como as mais-valias de um ecossistema de parcerias, também tecnológicas, para impulsionar a sua transformação digital e garantir que os seus “negócios” estão voltados para os desafios de uma economia moderna em mudança. Uma das atitudes que destaco, numa altura em que os efeitos do lockdown provocado pela pandemia ainda se fazem sentir, é a adaptabilidade. Acompanhando o que podemos chamar, ainda que à nossa dimensão, de Great Reset, empreendedores e líderes aproveitaram a oportunidade para refletir, re-imaginar e redefinir negócios, apostando em serviços em vez de produtos, e transitando para modelos de negócio digitais.

Eis alguns exemplos simples das dinâmicas que testemunhei. Uma paragem em Óbidos levou-me à descoberta da Livraria de Santiago, em Óbidos. Na Igreja de São Tiago, junto à entrada do castelo, podemos encontrar um espaço de negócio inovador, recheado de uma grande variedade de livros. Esta livraria generalista dedica parte do seu negócio a fundos de catálogo e tem na Internet e nas redes sociais o seu canal de vendas. Antes de abandonar Óbidos, encontrei outro exemplo de alteração da cultura dominante em relação à Transformação Digital. Ao entrar na Igreja de Santa Maria, deparei-me, logo à entrada, com um velário eletrónico, funcionando com moedas e lâmpadas led, combinando assim o ato da oração com tecnologia e ecologia. Mas a paróquia foi mais além com a ajuda da tecnologia, permitindo acender uma vela à distância a quem não pode estar presente na igreja, tudo através de uma aplicação mobile que se instala no smartphone.

Mais acima, em Barcelos, algo maior marca a presença na digitalização como “driver de transformação”. Pensei que conseguiria visitar a Sala da Supervisão Eletrónica da Águas do Norte – WaterSEE – mas não houve hipótese. Esta sala localiza-se nas mesmas instalações da antiga sala de comando existente no Edifício de Exploração da ETA de Areias de Vilar e veio aumentar a capacidade de gestão e supervisão das várias infraestruturas que são operadas pela Águas do Norte, garantindo uma visibilidade global e imediata sobre as ocorrências, avarias, falhas do serviço, interrupções de comunicações e energia, etc, que eventualmente se verifiquem nas infraestruturas de abastecimento de água e de saneamento de águas residuais que constituem o sistema multimunicipal de abastecimento de água e de saneamento do Norte de Portugal.

Já em Vila Real conheci mais alguns pormenores do Centro de Inovação e Tecnologia de Vila Real, a nascer até 2025 e cujo protocolo foi assinado em final de junho entre a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), a Câmara Municipal de Vila Real, o Regia Douro Park, a IBM Portugal e a Softinsa. Trata-se de um centro com foco tecnológico na área das cidades inteligentes, com tecnologias de ponta como a cloud híbrida ou a inteligência artificial. Numa primeira fase este centro estará a funcionar no Regia Douro Park e no campus da UTAD, fomentando desde logo sinergias entre a academia e o tecido empresarial, contribuindo assim para a retenção de conhecimento e talento, gerando emprego e oportunidades e, acima de tudo, potenciando a captação de investimento.

Ainda uma nota para a magnífica visita que fiz à casa de Eça de Queiroz, em Tormes. Cenário real/ficcional da obra literária A Cidade e as Serras, esta casa, situada na freguesia de Santa Cruz do Douro, concelho de Baião, constitui-se hoje, como um importante núcleo museológico referente à vida e obra do escritor. No meio dos vales poderosamente cavados do Douro, como o próprio Eça de Queiroz descreve, este empreendimento, a cargo da Fundação Eça de Queiroz, aposta no digital para divulgar e promover a obra do maior nome do romance português, desenvolvendo várias atividades, das quais se destacam atividades do serviço educativo, cursos, jornadas, conferências e colóquios.

Uma coisa que deveríamos ter aprendido com a pandemia, em particular com as medidas determinadas pelos confinamentos, é que a tecnologia não resolve problemas se as coisas forem feitas da mesma forma. A transformação tem que acontecer ao nível do processo, para incorporar as mais valias da digitalização. Veja-se, por exemplo, as dificuldades que o sistema de ensino encontrou no ensino à distância. Para utilizar a tecnologia ao serviço do ensino, com resultados positivos na aprendizagem, é necessário alterar metodologias, reinventar práticas pedagógicas e inovar na adaptação dos conteúdos. Também o putativo insucesso do trabalho à distância, vulgo Teletrabalho, foi disso um exemplo, única e simplesmente porque a maioria das organizações tentou fazer da mesma forma aquilo que passou a ser dinamizado num canal, ou numa plataforma diferente.

Quanto àquela linha que parte o nosso país em duas partes, acredito que o digital pode esbatê-la. Portugal tem feito um percurso ascendente na Transformação Digital, mas há ainda um longo caminho a percorrer, sobretudo no que respeita ao investimento, à liderança e ao acesso ao financiamento. Muito se fala, por exemplo, do facto de Portugal ser um dos destinos preferidos dos nómadas digitais. De norte a sul do país estão a surgir hubs de coworking. Boa ligação à Internet, natureza, boa comida, clima agradável, cultura emocionante e alojamento barato! São estas as condições de atração destes trabalhadores remotos. Há uma revolução digital a acontecer, sedenta de orientação tecnológica, soluções digitais, de infraestruturas digitais básicas e, mais importante do que tudo o resto, de capacitação. Precisamos de abordagens e estratégias deliberadamente inclusivas, e de atores do desenvolvimento que possam ajudar a construir as bases de ecossistemas digitais inclusivos, em toda a parte, sem linhas nem divisórias.

Opinião
Há uma linha que separa… Por Augusto Balça

Há uma linha que separa…

Augusto Balça, relata a sua experiência pessoal enquanto cliente e turista por lugares que, aqui no Portugalis® são abordados.

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Estranha Silly Season

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Foto: Unsplash

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Foto: Augusto Balça

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Foto: Augusto Balça

Cidades e Lugares

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Foto: Augusto Balça

Fotografar (não) é proibido!

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Foto: Augusto Balça

O mundo parou?

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O primeiro dia
Foto: Augusto Balça (ilustração)

O primeiro dia

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