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Alcoutim

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Delírio de Opinião
Delírio de Opinião
Augusto Balça | Formador e Tecnólogo
Formador e Tecnólogo | Augusto Balça

A ressurreição de Matrix

The Matrix: Resurrections, um dos filmes mais aguardados pelos fãs em toda a história do cinema.

Estamos a chegar ao final de mais um ano. E com ele chega The Matrix: Resurrections, um dos filmes mais aguardados pelos fãs em toda a história do cinema. Neste “delírio” gostaria de olhar para The Matrix naquilo que eles, o conjunto dos filmes, consistem, além de filmes de ação ou ficção científica. Eles são, na verdade, em relação aos tempos que vivemos, uma reflexão sobre a condição humana, contendo um profundo significado filosófico, retratando aspetos como realidade, existência, conhecimento, livre arbítrio, cultura crítica e determinismo.

Passaram mais de duas décadas desde o lançamento daquela que ainda é, pelo menos até agora, uma das mais conhecidas trilogias de ficção escrita adaptada ao cinema. Realizada pelos irmãos Andy e Larry Wachowski, Matrix ganha agora um quarto filme, passando assim a tetralogia. O primeiro filme, The Matrix, estreou em maio de 1999, provocando efeitos inesperados na cultura da Internet, numa sociedade global que se encontrava a meses do terrífico ‘Bug’ do Milénio, cujos receios passavam pela possibilidade de uma paragem total da maioria dos sistemas informáticos na passagem do ano 1999 para o ano 2000. Duas sequelas surgiram quatro anos mais tarde, lançadas no mesmo ano, em 2003, a primeira sob o nome de The Matrix Reloaded e, meses depois, The Matrix Revolutions.

The Matrix: Resurrections, também apelidado de Matrix 4, tem o lançamento mundial marcado para 22 de dezembro de 2021. Chegará às nossas salas de cinema com a chancela da Warner Bros. Em Portugal, provavelmente, estreará a 23 de dezembro para o público em geral. Keanu Reeves (Neo) e Carrie-Anne Moss (Trinity) estarão de volta, o que não acontece, infelizmente, com Laurence Fishburne (Morpheus), que afirma não ter sido contactado para a sequela, e também com Hugo Weaving (Agent Smith), que ficou impossibilitado de participar por motivos de agenda. Novos rostos juntam-se assim a Revolutions, com destaque para Yahya Abdul-Mateen II (o novo Morpheus) e Neil Patrick Harris, cujo personagem permanece envolvido em mistério e secretismo.

Pessoalmente estou expectante para voltar a “seguir” e a ir ao fundo da toca do “coelho branco”. A viagem que fazemos em todos os filmes de Matrix caracteriza-se por uma espécie de camadas que vão muito para além da ação, ou do visual elegante e inovador, ou até dos fascinantes efeitos especiais. A metafísica dualista sempre presente, bem vincada no primeiro filme da sequela, mas que segundo revelações feitas pelos produtores na CinemaCon 2021, também estará neste último, abre um inúmero leque de representações e abordagens filosóficas que adoro explorar.

Quem gosta de estudar filosofia apercebe-se facilmente que o dualismo que encontramos em The Matrix é típico da filosofia de Platão. Aliás, é praticamente impossível não se fazer a colagem dos dois níveis de mundo, divididos pela matriz, com a Alegoria da Caverna, de Platão. Fora da matriz está a realidade e dentro está o mundo da ilusão. Nesta metáfora, de A República, num diálogo entre Glauco, irmão de Platão, e Sócrates, este último explana aquele que afirmava ser o papel dos filósofos em tempos de conformismo. Na escuridão de uma caverna estão homens acorrentados desde a infância, olhando para a parede do fundo. Atrás deles, uma pequena abertura na parede deixa entrar raios de sol, projetando sombras nas paredes do que se passa lá fora. Quando um dos prisioneiros consegue libertar-se, sai da caverna e, ao chegar ao exterior, é cegado pela luz, percebendo, contudo, que o que viu antes não era a realidade. Volta à caverna para persuadir os outros prisioneiros e libertá-los. O problema é que estes não se mostram recetivos às suas descrições do que viu lá fora. Tendo crescido neste sistema, eles são irredutíveis na sua posição e acabam por ostracizar o fugitivo da caverna.

Em The Matrix, as semelhanças entre Sócrates e Neo não são, nem tentam ser, discretas. Neo é o Eleito e deve salvar o seu povo com a ajuda do oráculo, depois de ficar deslumbrado com a luz após a sua libertação. O Oráculo de Pítia, em Delfos, profetizou essa missão. Na verdade, Neo representa a vida do mestre de Platão, Sócrates, que tentou convencer os seus companheiros atenienses para a razão, acabando sentenciado à morte, condenado a beber cicuta. Lembremo-nos das palavras de Morpheus para Neo, em The Matrix: “A matriz é o mundo que se sobrepõe ao seu olhar para impedi-lo de ver a Verdade”.

As referências bíblicas marcam também, nestas obras cinematográficas, o seu papel. Por exemplo, o personagem Cypher cola-se muito à figura de Judas, por exemplo. O próprio Thomas A. Anderson, ou “The One”, anagrama de Neo, é, consequentemente, também uma metáfora de Jesus, ao ser o escolhido, um messias enviado para entregar a salvação. Ambos ressuscitaram. As referências ao cristianismo, judaísmo, hinduísmo, gnosticismo e budismo, entre outras, proliferam por todos os filmas, aparecendo e desaparecendo rapidamente.

Outra evidência relevante, e com um cunho filosófico significativo, prende-se com as pílulas vermelha e azul. É impossível não ligar as palavras que Morpheus diz a Neo, ao referir-se neste contexto à toca do coelho, à obra de Lewis Carroll, de 1865, Alice no País das Maravilhas. Este livro infantil revolucionário encontra-se carregado de metáforas espirituais sobre a condição humana e sobre a sociedade. Nele encontramos insights sobre determinados temas que vão desde falácias lógicas, passando pelo contratualismo e pelo pós-feminismo, abrangendo escolas de pensamento tão variadas como as de Aristóteles, Sócrates ou Hobbes, entre outras. Lembremos, assim, que Alice experiencia uma drástica mudança de perspetiva quando fica gigantesca, depois de comer um bolo que continha desenhadas as palavras "Eat Me". Da mesma forma, ela encolhe minusculamente ao beber uma poção chamada "Drink Me". Tal como Alice, Neo tem que decidir, segundo a condição imposta por Morpheus, se toma a pílula azul, terminando assim a acordar na sua cama e podendo acreditar no que quiser, ou toma a pílula vermelha, ficando na matriz e podendo conhecer “a profundidade da toca do coelho”.

O trailer de The Matrix: Resurrections, a circular há meses na Internet, vem mostrar-nos também a importância de outra obra de Lewis Carroll – Alice Através do Espelho – escrita em 1871. Neo surge, literalmente, numa cena em frente ao espelho, um espelho real que será usado como um portal mágico. Neste filme, Neo parece estar de volta ao reino “normal” de Matrix. Aparentemente terá deixado para trás aqueles que escolheram permanecer na matriz, que tomaram a pílula azul, receando o mundo real que julgavam ser um inferno insuportável. Apesar de nada de concreto ter sido revelado sobre o enredo de Matrix 4, estou desejoso de saber se terá Neo feito uma trégua com as máquinas. A pergunta que gosto de fazer a mim mesmo é se vivemos ou não todos numa matriz. Somos ou não todos Neo?

Ao mesmo tempo que questionam a natureza da realidade, os filmes contrapõem-nos uma reflexão entre o livre arbítrio e o determinismo, ainda que nem sempre percetível na primeira vez que vemos cada filme. Salientar que são ainda muitos os cientistas e filósofos que defendem, presentemente, que vivemos numa simulação. À semelhança do que escreveu o filósofo francês Jean Baudrillard, considerado um dos principais teóricos da pós-modernidade, no seu livro Simulacros e Simulação, a cultura pós-moderna é o exemplo do que a nossa sociedade se tornou dependente de modelos prescritos e cada vez mais afastada do mundo real. Esta ideia de artificialidade é defendida por muitos estudiosos, que afirmam não existir mais a distinção entre a realidade e a sua representação, assegurando que apenas existem simulações. Alguns recordar-se-ão, por exemplo, de algumas ideias ecoadas por Elon Musk, baseadas na filosofia de Nick Bostrum. Este filósofo da Universidade de Oxford divulgou, em 2001, um rascunho de um artigo sugerindo que um supercomputador altamente avançado seria capaz de executar uma simulação à escala global da humanidade. Musk deu eco a esta ideia na conferência Recode 2016, afirmando que "a probabilidade de estarmos na realidade básica é de uma em bilhões”. Isto é, sem dúvida, The Matrix. De certa maneira, os Wachowski fazem a mesma pergunta que Platão fez, ou seja, como sabermos o que é realmente a nossa realidade?

Ficamos então a aguardar The Matrix: Resurrections. Até lá, pergunto a todos os que chegaram até aqui neste “delírio”: Que pilula optarão por tomar hoje? Vermelha ou azul? Quem precisar de ajuda para decidir pode visitar o Oráculo, ou seja, recorrer ao site “Choose Your Reality” , criado pela Warner Bros. Dependendo da escolha, conhecerá qualquer uma das vidas dentro da matriz. Importante é não esquecer o que dizia a placa na têmpora do oráculo original em Delfos: “Conheça-se a si mesmo”. Uma coisa que aprendemos com Neo é que apenas, quando pudermos superar a nossa ignorância, obteremos o verdadeiro conhecimento de quem somos e do que devemos fazer.

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